Rio Branco, Acre,





Rocha: “Acre ainda continua sendo um estado muito violento, mas os números são menores”


"Não há segurança que funcione se não houver emprego para a população e uma economia que ofereça perspectiva", diz o vice

TIAO MAIA, DO CONTILNET

Jornalista atuante na imprensa do Acre até o final dos anos 80, ele virou militar, no Exército e na PM, e de lá saiu para a política. Foi eleito deputado estadual, deputado federal e em 2018 chegou condição de vice governador do Estado. Este é o perfil do acreano de Rio Branco Wherles Fernandes da Rocha, o atual número dois na hierarquia de poder no Estado, que também tem formação em Direito.

Ele não esconde que sonha em vir a disputar o cargo de governador, mas diz que, em 2022, se Gladson Cameli, o governador titular, quiser concorrer à reeleição, ele buscará outro destino, já que não gostaria de repetir a experiência de disputar um novo mandato de vice-governador.

Na entrevista a seguir, Rocha também fala de um tema no qual se tornou um especialista, a segurança púbica, além de economia e de outros temas. A seguir, os principais trechos de uma entrevista concedida no gabinete do governador.

Rocha: “O convite a mim para ser vice veio para tentar por fim à uma guerra eu havia dentro do bloco de oposição”/Foto: Wania Pinheiro/ContilNet

Desde que o Acre se tornou democrático, elegendo seus governantes pelo voto popular, é comum o governador e o vice-governador baterem de frente. As únicas exceções, ao que parece, foram o médico Labib Murad, vice de Orleir Cameli, e Édson Cadaxo vice de Flaviano Melo. O resto foi de enfrentamento, incluindo a vice Iolanda Lima ou Fleming com o então governador Nabor Júnior. Da relação do vice Romildo Magalhães com Edmundo Pinto nem é preciso falar. Os governos do PT, com Edson Cadaxo vice de Jorge Viana e depois de Binho Marques e de César Messias como vice em dois mandatos, tudo pareceu tranquilo. Nos bastidores de todo o Acre fala-se que o seu interesse de deixar a Câmara Federal para vir a ser vice-governador seria com o fito de vir a ser titular, numa eventual vacância do governador titular. Como é que o senhor lida com isso?

Wherles Rocha – O convite a mim para ser vice veio para tentar por fim à uma guerra eu havia dentro do bloco de oposição. O Gladson havia me feito um convite num momento anterior e eu não aceitei. Houve um momento em que havia um conflito muito acirrado e o Gladson me chamou e disse: – olha, vem porque, em relação a seu nome, não vai haver questionamentos. Eu pesei muito sobre o assunto. É lógico que ser parlamentar, com uma cadeira na Câmara ou no Senado ou mesmo na Assembleia Legislativa, é uma situação de muito mais conforto do que um cargo no Executivo, principalmente num Estado em condições em que encontramos o Acre – e nós sabíamos que não estava muito bem. Quando aceitei o convite do Gladson, eu sabia que aquele casamento, aquela união que estávamos iniciando era para ajudar ao Estado, uma união para construir aquilo que era um sonho nosso, de mostrar que o Acre poderia ser melhor, que poderia ser um Estado menos violento, com emprego e que poderia ser bem melhor do que o que era porque aquele modelo em vigor estava levando o Acre à uma situação irreversível. E mais que isso: quando eu aceitei a ideia (de ser vice), ali for firmado um pacto entre eu e o governador. E esse pacto é indissolúvel porque, qualquer um de nós dois que romper com esse pacto, os dois vão naufragar, mas, mais que isso, o Estado vai naufragar. Entre nós, há uma relação de confiança, de amizade e de respeito. Até hoje não tenho motivo para me arrepender ou para ter um sentimento diferente. Primeiro, porque o Gladson tem um coração do tamanho do mundo e tem boas intenções porque é alguém muito bem intencionado…

Então. Os senhores são iguais?

Não, acho até que, politicamente, ele tem um pensamento um pouco diferente do meu. Eu sou um pouco mais duro do que ele mas isso se completa. Então, não há possibilidade de rompimento, porque isso seria ruim para mim, para ele e, principalmente, para o Estado. Nós temos um pacto e uma aliança pelo Estado.

“Segurança pública é um problema complexo”, diz vice governador/Foto: Wania Pinheiro/ContilNet

Quando os senhores chegaram no Governo qual foi a principal dificuldade? Vocês chegaram num momento em que o Estado devia muito e havia um clima de violência profunda, a saúde praticamente estagnada. Desses problemas todos, quais foram os principais que o senhor sentiu?

Em primeiro lugar, eu tinha noção disso e o Gladson também. E a primeira coisa que sentíamos é que a necessidade era de montarmos uma boa equipe. Fizemos isso. E daí para frente é uma questão de priorizar. Mas é difícil priorizamos quando temos problemas tão graves na saúde, na segurança, na infraestrutura. Enfim, tínhamos problemas graves em todas as áreas. Mas a equipe foi elegendo aquelas prioridades mais prioritárias, entre as quais a segurança. Nós avançamos muito no setor, mas é verdade que não temos motivos nenhum para comemorarmos. O Acre ainda detém de violência inaceitáveis…

A propósito, a principal crítica ao atual governo é que continuam os mesmos índices de violência do governo anterior. O senhor concorda com isso?

A verdade é que os números atuais são bem menores, mas não são números para se comemorar porque o Acre ainda continua sendo um estado muito violento. Ainda há muita coisa para fazer. Mas, o que nos alegra é que, além do apoio do governador para essas áreas, como da saúde e da segurança, que têm que ter além da sensibilidade, nós conseguimos montar um grupo que tem se empenhado em buscar soluções para os problemas. Na segurança pública, o coronel Paulo Cezar e sua equipe conseguiram recuperar um montante de recursos para o setor de mais de R$ 40 milhões. Eram recursos que estavam garantidos para o Estado, mas eu não sei por qual motivo o governo passado não agiu e por pouco nós não perdemos esses recursos de vez.

Não agiu por que? Não fez projetos para que os recursos fossem investidos?

Sim, isso parecia uma prática dos governos passados, principalmente do último. Eram recursos que sempre fizeram falta para nós. Isso para ter sido executado – já que era uma emenda de 2017 – em 2018 e vamos executar agora, se Deus quiser, em 2019.

O senhor falou em R$ 40 milhões. Dar para fazer o que com esse dinheiro?

Muita coisa! Nós poderemos adquirir mais de cem viaturas, que já seria a maior aquisição de viaturas da história do nosso Estado e com esses recursos estamos adquirindo uma série de equipamentos que estão sendo comprados, como, por exemplo, câmeras de identificação facial, de placas de veículos. Enfim, uma série de investimentos em comunicação. Só para você ter uma ideia: as polícias do Acre trabalhavam às cegas. Os policiais que precisavam se comunicar com o Ciosp ou com outro centro de comunicação, faziam por telefone ou por aqueles rádios comprados na Bolívia. Hoje, não. O coronel Paulo Cezar me fez uma apresentação dos equipamentos de comunicação que estão sendo implantados – ainda não estão totalmente implantados, mas boa parte das nossas unidades já têm – são tão modernos que permitem a transmissão de dados. Quando vi, tive vontade jogar meu celular da Vivo no lixo. São investimentos que estavam previstos para serem executados em 2018 e, graças a Deus, nós conseguimos recuperar para executar agora em 2019. Com isso, nós vamos ter, sim, um salto de qualidade em equipamentos de segurança.

“Eu acho que a floresta é um ativo gigantesco, fantástico. Mas nós temos que a explorar”/Foto: Wania Pinheiro/ContilNet

Essas novas ações na área de segurança darão resultado quando? Quando o Acre vai parar ou diminuir seus índices de violência, principalmente der crimes contra a vida entre os jovens?

Segurança pública é um problema complexo. Eu estive, há alguns anos atrás, quando estava na Câmara Federal, numa visita ao Japão. Fui lá para conhecer o sistema de segurança daquele país. O Japão foi um dos países mais violentos do mundo. A Yacuza, a máfia japonesa, nos pós-guerra, fazia um banho de sangue no país e levava o Japão a ser um dos mais violentos do mundo. E hoje a região metropolitana de Tóquio tem quase 50 milhões de habitantes e o índice é de 100 homicídios por ano. Depois de uma explanação das autoridades de segurança de lá, quando expuseram que o principal problema na área de segurança do país eram problemas de estacionamento, eu perguntei ao chefe de polícia de lá o que havia acontecido. A resposta foi: estabilidade econômica. Então, é assim: eu não tenho dúvida de que, para melhorar isso, tudo passa pelo aprimoramento do trabalho das polícias, investimento em tecnologia mas é fundamental que façamos a economia funcionar. Não há segurança que funcione se não houver emprego para a população e uma economia que ofereça perspectiva às pessoas sobreviverem de forma digna.

Mas, ao que parece, o atual governo está repetindo o que os governos fizeram, investindo em prédios, em recuperação de estradas, etc. Mas, do ponto de vista econômico, o que está sendo feito, qual é a saída para o Acre na sua visão, para a geração de empregos e renda à população de forma imediata e à longo prazo?

Não existe, para isso, uma formula pronta. São num conjunto de ações. Temos que voltar a aquecer a nossa economia e voltar a produzir. Vou lembrar que, há 40 anos atrás, no governo Geraldo Mesquita, o Acre se preparou para o agronegócio. Mesmo que ainda não houvesse esse conceito, o governador Mesquita investiu na criação dos Nari (Núcleo de Apoio Rural Integrado), construiu uma rede armazéns em todo o Estado, inclusive nos municípios mais isolados ainda estão lá os armazéns da Cageacre. Esses armazéns eram abarrotados de arroz, feijão, milho e outros produtos e, nesse mesmo período, as pessoas diziam que o Mato Grosso não produzia nada, porque era uma região de cerrado e o cerrado é seco onde não nasce nada. E hoje a grande locomotiva do agronegócio brasileiro é o cerrado. Há produção inclusive no semiárido. Eu fui a Israel e vi produção de frutas e produção agrícola no deserto. Nós temos uma abençoada com chuvas… antes de o Mato Grosso ou de Rondônia despontarem para o agronegócio, o Acre já tinha toda uma infraestrutura. É lógico que não dar para comparar o que nós temos hoje com o que o Mato Grosso, Rondônia ou Goiás construíram… Mas, naquele período, o Acre esteve à frente desses estados. Mas vivemos um momento em que a política econômica do Estado voltou para o atraso e retrocedeu para pelo menos cem anos, voltou ao extrativismo. Enquanto isso, outros estados acertaram na sua economia.

Segurança pública é um problema complexo. Eu estive, há alguns anos atrás, quando estava na Câmara Federal, numa visita ao Japão. Fui lá para conhecer o sistema de segurança daquele país. O Japão foi um dos países mais violentos do mundo. A Yacuza, a máfia japonesa, nos pós-guerra, fazia um banho de sangue no país e levava o Japão a ser um dos mais violentos do mundo. E hoje a região metropolitana de Tóquio tem quase 50 milhões de habitantes e o índice é de 100 homicídios por ano.

Mas o argumento dos governos anteriores era o de que, só assim, seria possível salvar as florestas. O que o senhor acha desse argumento?

Eu acho que a floresta é um ativo gigantesco, fantástico. Mas nós temos que a explorar. É uma coisa que está lá à disposição do homem, do nosso Estado. É inadmissível – e os governadores da Amazônia, num fórum recentemente, foram unânimes em afirmar isso – que na Amazônia, mais da metade da população viva abaixo da linha da pobreza, quando nós temos aqui, na nossa região um patrimônio incalculável. Nós temos estados aí que têm patrimônio mineral muito maior que muitos países do mundo. É claro que nenhum governador ou governos defendem a devastação.

E essa proposta do senador Márcio Bittar, que, queira ou não o senhor, é aliado do atual governo, de propor o desmatamento de cem por cento das propriedades privadas?

Penso que nós não podemos sermos contaminados pelo radicalismo ambiental e muito menos pelo radicalismo predatório. Não é isso. Na Amazônia, nós temos um potencial em fármacos gigantesco mas não temos dinheiro para investimento, para pesquisas, para descobrimos fórmulas e novos medicamentos. Nós compramos aqui em nossos supermercados frutas que são da Ásia e que são produzidas no Brasil e nós temos que por nos mercados as frutas da Amazônia. Nós temos áreas propícias para a soja, para o milho e outras culturas. Nós temos que apostar nisso. Mas eu penso – e tenho certeza de que o governador Gladson Cameli também pensa desta forma – que não devemos ser nós, do governo, que devemos dizer o que o produtor o que ele deve fazer ou plantar. Eu vi plantação de café aqui no Acre em que o produtor rural está tirando 200 sacas por hectare. Isso significa R$ 60 mil por ano, por hectare. Rondônia é o segundo maior produtor de café Conilon do Brasil e em algumas propriedades, produzem 220 casas por hectare. E aqui, que começamos isso ontem, já produzimos 200 sacas e isso nos mostra que temos um potencial muito maior. Mas hoje o que se prega é agricultura com tecnologia. A tecnologia tem que ser agregada. Nós temos uma quantidade de terras muito boa para a produção e hoje nós não precisamos desmatar porque temos terras em abundância para produzir. Com o que nós temos podemos trabalhar durante muito tempo. Mas falta investimento. Não se produz sem assistência técnica, sem a infraestrutura, sem ramais. É isso que nós temos que fazer voltar.

O senhor disse que o governo não vai dizer ao produtor o que ele tem que fazer e plantar. Mas o que o governo pode fazer para atrair o produtor a acreditar e investir na própria terra?

Eu tenho conversado com muitos produtores. O que percebo é que hoje a maior dificuldade no setor é fazer com que o produtor possa vir a acreditar que o Estado vai parar e persegui-lo. É fazer com que o produtor acredite que o Imac (Instituto de Meio Ambiente do Acre) é um órgão que deve fiscalizar sim mas que antes de fiscalizar tem que orientar, que deve mostrar como é que se faz. Isso está sendo feito. Eu lembro que aqui no Acre nós já tivemos o maior laticínio da região norte, que era a antiga Cila. A produção de leite no Acre, há 25 anos atrás, era maior do que é hoje. E hoje nós temos produtores aqui no Acre – o caso do Carlai, um produtor cuja propriedade fica ali na frente do Top Quinze – que produz mais de 1 mil litros de leite em menos de 30 hectares e a meta dele é dobrar isso, produzindo dois mil litros. E propôs uma parceria como governo: ele vai ensinar às pessoas como se produz leite nessa quantidade, com o Estado entrando na parceria com assistência técnica adequada. Esta parceria está fechada. A gente tem quer respeitar a vocação do produtor, porque ele sabe o que é melhor para ele e com o que ele melhor se adequa. Mas o Estado tem que oferecer um leque de opções para que ele possa produzir e condições para que ele também desenvolva outras atividades.

E quando o atual governo começa de fato a deslanchar, a executar os planos que o senhor e o governador Gladson Cameli prometeram em campanha?

Na verdade, o governo já começou isso. Na questão da infraestrutura nós temos aí R$ 100 milhões – recursos que nós quase perdemos também – obtidos numa luta muito grande para a manutenção desses recursos e esses investimentos serão fundamentais para fazer o nós queremos. A Seeaprof está se preparando para, quando chegar o verão, começar a atuar. Nós estamos preparando o corpo técnico que nós temos e também vamos fazer parcerias com universidades para que a gente possa atender o produtor rural. Nós temos no Acre hoje uma condição muito melhor do que tivemos alguns anos atrás. Nós temos cursos de veterinária e outros afins cujos alunos podem nos ajudar a chegarmos ao que queremos.

“Nosso papel é buscar os meios para que as coisas aconteçam e nós vamos fazer isso”, garante vice//Foto: Wania Pinheiro/ContilNet

E, politicamente, como o senhor enxerga o futuro? Qual é o futuro do cidadão Wherles Rocha?

Como disse no início, eu tenho uma aliança com o governador Gladson Cameli, que vai até ao final deste Governo. Independentemente de Governo, nós temos uma relação que transcende à política. Eu o vi dizendo que deve sair para a reeleição. Eu decidi que não topo a parada de ser candidato a vice de novo. Vou torcer para que ele escolha um vice que o ajude e vou tentar disputar outra coisa. Vou trabalhar os quatros anos para que o nosso governo dê certo. Afinal, não sou eu que ganho. Aqueles que apostam no quanto pior melhor, aposta contra ele mesmo, está apostando contra o nosso Estado, contra as pessoas que não têm emprego e que precisam de emprego, que não têm segurança e precisam de segurança, que não têm ruas e precisam de ruas. Nosso papel é buscar os meios para que as coisas aconteçam e nós vamos fazer isso.

Não há então nenhum risco de concorrência entre o senhor e o governador titular?

Como já disse, o Gladson é meu amigo e eu disse a ele: me diz o que tu quereres que eu vou me adequar a isso. Ele não disse a mim, mas declarou à imprensa que deve ser candidato à reeleição. Ele é meu candidato a governador. Vamos trabalhar para que ele se reeleja e vamos ajudar a ele a escolher um bom vice que o ajude nos novos quatro anos. Eu vou procurar outros caminhos. A Câmara Federal para mim não teria possibilidade porque temos lá a Mara (deputada Mara Rocha), minha irmã e que está fazendo um bom trabalho. A Assembleia Legislativa é um lugar que eu gosto muito e que para mim foi a melhor escola que eu tive. Mas há várias opções. Ainda é cedo para a gente pensar, mas eu não pretendo parar por aqui. Pretendo disputar novas eleições.

E se o governador decidir não disputar a reeleição? O senhor toparia ser o candidato ao governo?

Assim, eu aceitaria disputar o governo. Mas isso apenas se governador decidir não disputar.

Ao que parece, o quadro para o ano que vem, dentro do governo, está assim: o governador Gladson Camel teria um candidato pelo PP, que seria o secretario de Infraestrutura, Thiago Caetano, e o senhor teria outro, pelo PSDB, que poderia vir a ser sua irmã Mara. Como vai ficar isso? Vai haver essa disputa?

E muito cedo para se falar eleição municipal. Mas, até lá, as coisas se ajeitam. Se eu tiver que apoiar o candidato do governador, dentro deste grupo que nos apoia, não vejo problema, embora o PSDB também vá a luta para ter candidato e eleger prefeitos, até porque agora, não havendo mais coligações proporcionais, e preciso que haja candidaturas majoritárias para que os candidatos a vereadores tenham palanque. Mas ainda tem tempo para pensarmos nisso.

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