Rio Branco, Acre,





19 de abril Dia dos Povos Indígenas. Se comemora ou se indigna?


No Brasil atual, não se encontra motivos para comemorar o dia do Índio, pelo menos não por aqueles a quem o dia é destinado, estes vivem ainda sobre o mesmo clima da época em que a data foi criada

POR CARINA MENEZES

O que é ser índio no Brasil? É uma pergunta interessante, pois como pouco se fala sobre os indígenas, o que fica no senso comum é que índios são aqueles que residem em comunidades isoladas, no meio da floresta, e falam uma língua diferente. Mas, será que é apenas isso ou será que houve no decorrer dos últimos séculos um apagamento generalizado do que seria a cultura indígena? Segundo levantamentos da ONU, da população atual, 57% vivem em Terras Indígenas oficialmente reconhecidas. Mas, também existem famílias que moram na zona rural e em cidades. Em alguns municípios do Amazonas, por exemplo, é comum bairros de comunidades indígenas, a maioria vivendo em situação de pobreza.

Povos Indígenas Yawanawá, Acre/Foto: Juan Diaz

Ao que parece, grande parte da população e principalmente o governo, interessa-se por manter o povo indígena em um lugar de invisibilidade e estranhamento, colocando-os como personagens que caminham na contramão de um suposto progresso e, esse lugar de estranho indesejado, sem espaço no Brasil que busca o desenvolvimento, tem permitido todo o tipo de atrocidades contra indivíduos e também contra etnias inteiras ao longo da história.

São 500 anos sob a prepotência de uma civilização hegemônica que vem massacrando os corpos indígenas com as armas e o trabalho escravo, e suas almas com um deus exclusivo. Por economia de mercado, por política imperial, por religião imposta, por bulas e decretos e portarias pseudocivilizadas e pseudocristãs.

Criança Yawanawá da aldeia Nova Esperança/Foto: Juan Diaz

Diante desse olhar mais atento sobre a história do Brasil, que desde o “descobrimento” viola os direitos do indígena, nesse dia 19, há muito mais ao que se lamentar, e também ao que se refletir do que se comemorar. A luta desse povo ainda hoje é por afirmação, por existir, e a luta de afirmação da humanidade indígena passa pela luta de demarcação de terras. Esta permitirá a manutenção da identidade indígena, seu fortalecimento e a cultivação de sua cultura.

A demarcação de terras indígenas já gerou diversos conflitos. Manifestações e protestos desses povos têm sido uma cena cada vez mais comum em Brasília (DF). Isso, porque além deles estarem politicamente mais organizados, tramitam no Congresso Nacional uma série de projetos que afetam diretamente as questões e os direitos indígenas, como a PEC 215 que transfere do Executivo para o Congresso o poder de demarcar terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação.

É a mobilização do indígena que faz o 19 de abril ser relevante, uma oportunidade de reconhecer este povo como raiz da nossa nação/Foto: Juan Diaz

Essa é uma questão histórica que ainda está longe de ser resolvida. Se opondo a ela, há os interesses, políticos e econômicos das elites. É inadmissível que o país olhe para essa questão apenas como um conflito entre os índios e os proprietários rurais. O que está em disputa é um projeto de sociedade, no qual esteja assegurado o direito de existência.

Os sinais apresentados pelo governo recente não permitem qualquer reação de otimismo, e dão razão ao medo e a resistência dos povos indígenas. No Brasil atual, não se encontra motivos para se comemorar o dia do Índio, pelo menos não por aqueles a quem o dia é destinado, estes vivem ainda sobre o mesmo clima da época em que a data foi criada. É a mobilização do indígena que faz o 19 de abril ser relevante, uma oportunidade de reconhecer este povo como raiz da nossa nação, também nos indignamos frente ao desprezo e indiferença aos seus direitos pautados por lei.

*Carina Menezes é Jornalista e estudante de História na Universidade Federal do Acre. Nasceu no município de Marechal Thaumaturgo, no interior do Acre, fronteira com o Peru.

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