Rio Branco, Acre,





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O Espírito daCoisa

Dilema da Educação: de amor eterno seja símbolo ou um sonho intenso, um raio vívido


O frêmito patriótico que percorre o país evoca reminiscências políticas de um passado idílico e quase parnasiano.

Foto capa POR TOINHO ALVES

No nosso peito juvenil

Nas escolas da minha infância, incluindo o Instituto Nossa Senhora das Dores, o velho “colégio dos padres”, uma geração aprendeu a cantar os vários hinos que a educação cívica da época exigia. E a observar todas as maneiras da obediência e do bom comportamento. Começava pelo longo ritual antes de entrar na sala de aula. Primeiro, formar filas no pátio, cada turma em fila “indiana” do mais alto ao mais baixinho. Cantar o hino. Escutar avisos e preleções. Depois entrar, com as mãos pra trás, de cabeça baixa, em silêncio. Sentar cada um na sua cadeira, apoiar a testa nos braços, ficar com o rosto encostado à mesinha, sempre em silêncio, até a entrada do professor. Tinha mais detalhes, certamente, mas já faz tanto tempo…

Afinal, não sei qual foi a influência de toda essa disciplina na formação do bando de rebeldes subversivos em que alguns de nós nos transformamos. Eram contraditórios aqueles padres italianos de sólida formação fascista e, no entanto, amantes da filosofia e da liberdade ao ponto de darem abrigo e emprego a um subversivo notório -com seus direitos políticos cassados- como Elias Mansour e deixá-lo ter ampla influência na formação de centenas de adolescentes, além da professora de História, Ester Maia, que era irmã de um político também cassado e tinha laços óbvios com a oposição.

Quanto aos hinos, por quê deixaram de ser cantados? Sempre desconfiei que foram sendo deixados de lado porque incomodavam ao regime militar. É sério, não estou brincando. O refrão do hino da Proclamação da República, por exemplo, “liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, era cantado pelos estudantes nas passeatas do final dos anos 60. Foi cantando o Hino Nacional que Chico Mendes e os seringueiros de Xapuri receberam a polícia militar, que havia sido chamada pelo fazendeiro para reprimir um empate na floresta. E o Hino Acreano, nosso mais querido, representava uma resistência regional contra a nova ocupação da Amazônia que os americanos promoviam, com patrocínio do governo brasileiro. Nos anos 70, aos poucos, os hinos foram sendo substituídos pelas musiquinhas tipo “Eu te amo, meu Brasil” e os “90 milhões em ação” da seleção brasileira que ganhou a Copa no México. E as caixas de leite da merenda escolar, os mais velhos lembram, tinha a bandeira dos Estados Unidos.

Algum patriotismo

Nunca fui muito nacionalista, reconheço. Mas tenho orgulho pessoal e reivindico perante a posteridade a iniciativa de fazer o Hino Acreano voltar a ser cantado, após muitos anos de desprezo pelos governos estaduais. Foi na campanha eleitoral de 1990, quando o PT, que naquela época ainda tinha algum idealismo, lançou o jovem Jorge Viana candidato ao governo. O cantor e compositor Sergio Souto, que era filiado ao PDT, partido do Mario Maia, que se aliou aos “meninos” e tentava reeleger-se senador, resolveu reunir uma dúzia de suas músicas para gravar um disco e ajudar na campanha. Uma tarde, após uma reunião, chamei o Sérgio num canto e perguntei: “você conhece a versão do Hino Nacional que a Fafá de Belém gravou por ocasião da morte do Tancredo Neves?”. Ele disse que sim, claro. E eu propus: gostaria que você gravasse uma versão do Hino Acreano num ritmo mais lento, com aquela densidade dramática, mas sem tristeza, com um tom mais épico”. Os olhos dele se iluminaram. “Entendi. Deixa comigo” -falou. Depois viajou pro Rio de Janeiro e passou por lá uns dois ou três meses.

Já estavámos com a campanha indo pras ruas, quando Sérgio Souto voltou, com várias caixas de seu disco, que foram entregues no comitê. Um dia, falou comigo: “e aí, já escutou o hino?”. Eu não tinha escutado. Então me convidou: “venha para o lançamento da candidatura do Thaumaturgo, na quadra do Meta, que vou lançar o disco lá”. O Colégio Meta era o mesmo antigo Colégio dos Padres onde eu tinha passado minha infância e adolescência. Após os discursos, Sérgio botou pra tocar o hino e me deixou engasgado de emoção. A interpretação, orquestração, ritmo, tudo era perfeito. O formoso hino ia arrebatar os corações. Voltei para o comitê e dei uma ordem, como se fosse um chefe militar: “não sai uma cópia desse disco até começar a propaganda no rádio e na televisão. As fitas para os carros de som podem ser gravadas, mas sem o hino”. Meu medo era que outro candidato ficasse sabendo e resolvesse copiar. Passei algumas semanas apreensivo, vigiando qualquer espionagem.

Quando o programa na televisão abriu com a imagem de um sol a brilhar, soberano, e o som do Hino, marcamos o primeiro gol de uma virada histórica nos rumos do Acre. Jorge não se elegeu, quem ganhou foi o Edmundo Pinto, mas o hino ficou como marca de um renascimento do sentimento de amor à terra e foi usado e até abusado depois, em outras campanhas e no governo, que foi afinal conquistado oito anos depois. O resto é história, todos conhecem e alguns já esquecem.

Quem canta, os males espanta

Ideologias à parte, não conheço ninguém que seja contra cantar o Hino Nacional nas escolas. Aliás, ao menos nas proximidades do dia 7 de Setembro, o hino é ensinado e cantado. Ninguém tem a ilusão de que tal manifestação de civismo vai resolver os gravíssimos problemas da educação brasileira, mas é claro que não vai fazer mal.

Acho, entretanto, que os professores estão certos em protestar contra o patriotismo fake do ministro da Educação. Esclarecendo: ele não mandou cantar o Hino, como seus defensores dizem. Isso seria uma patriotada, mas não chegaria a ser um crime, nem mesmo um pecado mortal. O que houve, de verdade, foi que o MEC deu instruções para que fosse lida uma carta do Ministro -que se encerra com o slogan que o atual Presidente usou na campanha eleitoral-, que isso fosse feito após cantar o Hino e que fosse filmado. O Ministro já reconheceu o erro e mandou reeditar a instrução, que agora virou um convite às escolas que quiserem, “voluntariamente”, ler uma carta da qual já foi retirado o slogan eleitoral. Voltou atrás, mas a bobagem ficou registrada.

Para redimir-se do erro, acho que o Ministro devia pagar uma prenda: cantar o Hino Nacional, gravar em vídeo e publicar nas redes sociais. O hino do Brasil, bem entendido, não o da Colômbia, país de nascimento do Ministro. E teria que pronunciar as palavras corretamente, em bom português. Não seriam toleradas pronúncias como “dessafia o nôsso peito a prôpria môrte” ou “a imarren do crusseiro rêsplandêce”.

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